Hoje eu quis que o mundo girasse mais devagar para que eu pudesse entender o funcionamento de sua engrenagem sem me assustar demais com o que está por vir.

Senti saudades do cheiro da neve molhada de quando eu morava na Califórnia, do descompromisso com todas as coisas que não eram divertidas, senti pena de não dar mais tempo de ser bailarina.

Hoje eu quis ter um pai vivo que me dissesse, com aquele sotaque carcamano: “Papai paga seu aluguel este mês. E vá à manicure também”. Ou que, pelo menos, minha mãe não ligasse doente cobrando atenção e eu não precisasse sentir culpa, além de cansaço.

Hoje eu quis que as minhas escolhas fizessem sentido e em vez de representar um punhado de questões em aberto. Torci para ter tempo de mastigar a comida antes de voltar ao trabalho, e, ao voltar, desejei que meu chefe usasse o veículo para dar voz a quem tem o que dizer. Gente criativa que precisa divulgar iniciativas relevantes, em vez de privilegiar os faniquitos de uma burguesia alienada e decadente que continua ditando o que vai ser publicado nos jornais.

Hoje se eu pudesse trocar, queria ter lido menos Beauvoir e mais Deepak Chopra – menos filosofia e mais dinheiro no bolso, porque no fim das contas, quem vence mesmo é o poder coercitivo do SPC ameaçando a integridade da classe média (preciso checar a definição atualizada pra ver se ainda faço parte dela).

Hoje eu desejei ter permanecido na caverna de Platão, quente e confortável, porque as luzes do mundo aqui fora estão machucando demais a minha retina. Quis ter seguido acreditando na existência de um deus miseriocordioso e na eficiência do “pai nosso” para as noites de medo do escuro.

Quis ter casado com o primeiro namorado – provavelmente eu estaria indo pela terceira vez comprar eletrônicos em Miami e não teria que passar roupa. Hoje quis lençóis de linho e cosméticos que suavizassem as horas não dormidas e os cigarros em exagero.

Quis voltar no tempo e aproveitar a tranqüilidade de uma época despreocupada para construir o que hoje tanto me falta. Quis ter mais a oferecer que apenas um par de braços dispostos a trabalhar até a exaustão.

Hoje eu quis que o mundo girasse mais devagar.