Em entrevista à Bravo, Fernanda Montenegro me leva ao riso descrevendo como algumas pessoas reagem ante sua vitalidade:
- “Me olham com assombro: “Ainda fala! Ainda se locomove!”
Em uma escala menos drástica, evidentemente, noto ser esse o tipo de estranhamento que causo em meninos e meninas que dividem comigo salas de aula, corredores e um lugar ao sol: enquanto muitos ainda se despedem das espinhas da adolescência, eu me despeço dos deslumbres e das certezas absolutas que norteiam os muito jovens, à custa de muitos passos em falso. Retroceder para avançar é o que se deve fazer para consertar direções erradas e aqui estou eu, apavorada e maravilhada com a ampla lista de possibilidades à minha frente.
Ser independente sempre foi uma obsessão. Talvez por conta da educação rígida demais para um fedelho obediente de menos, a insolência me levou a optar por atalhos: saí da casa dos pais mais cedo do que meu salário era capaz de suportar. Entretanto, viver – sem geladeira ou cama – onde a vista deles não podia alcançar era incrivelmente sedutor. Mesmo lavando o cabelo com sabão de côco.
Confiando que aquela amostra grátis de liberdade era o máximo a que se podia almejar nesta encarnação, deixei – eu e o Zeca Pagodinho -, a vida me levar. E, deixando de citar Zeca para citar Neruda: confesso que vivi. Não há nada mais pernicioso que o viço da juventude aliado à vontade desvairada de experimentar o novo. Pulando de galho em galho – fosse galho um namorado ou um emprego -, ora me aquietava, ora ia pra bem longe – fosse longe o Recreio dos Bandeirantes ou a costa oeste dos Estados Unidos. E o mundo todo era um território ilimitado a ser conquistado com bandeirinhas coloridas, uma espécie de tabuleiro de “War” ampliado um milhão de vezes.
Até que. Certo dia. A noite. O réveillon. Veuve Clicquot. O verão. As viagens. Não fomos felizes para sempre: o vazio. Muitas esquinas depois, a necessidade de construir foi maior que a vontade de consumir – coisas e pessoas. De Neruda para Nietzshe: o caos dando lugar a uma estrela cintilante. Repensar, reconfigurar e restartar. O maior impacto deste tisunami aconteceu na minha vida profissional e depois de anos longe da academia prestei vestibular para Comunicação. Tempos depois, ouvi de um professor a pergunta que traduzia este movimento: “você quer um emprego ou uma carreira?” Era a primeira vez que não escolhia o caminho mais curto.
Sinto-me como uma criança que aprende a dar os primeiros passos: insegura, mas que aos poucos aprende a se impor com firmeza.
abril 19, 2010 at 4:26 am
Sensacional amiga, como tudo que vc escreve. Parabens!
abril 19, 2010 at 12:52 pm
Que resumo maravilhoso da sua juventude, e além de tudo agora sabemos que as alegrias podem vir de uma benção iluminada, mas normalmente elas aparecem pelas nossas conquistas. E que alegrias saborosas!