Não importa a opinião que se tenha sobre a obra de Woody Allen, um ponto é pacífico: trata-se de um gênio. Em Whatever Works o humor do diretor aparece mais ácido do que nunca. O mérito desta linguagem ao mesmo tempo informal e sofisticada é a inquestionável aproximação com a audiência, o que aumenta em quantidade e qualidade sua capacidade de se comunicar. Através de diálogos cômicos – que camuflam conceitos dos mais elaborados – ele consegue atingir um público que vai do simplório ao erudito.
Inicialmente pode gerar certa frustração o fato de Boris – o protagonista interpretado por Larry David -, ser um pastiche do agoniado Woody de outros tempos (como em Annie Hall, Manhattan, Hannah e suas Irmãs), mas essa sensação logo desaparece porque o ator defende o personagem com dignidade e o filme é realmente divertido. O romance improvável entre uma jovem alienada e um intelectual ególatra gera cenas hilárias e uma série de situações que só poderiam mesmo sair da cabeça de Allen.
Watever Works fala sobre inadequação. Boris é um homem empertigado que não suporta gente e usa seu cinismo para mantê-las tão longe quanto possível. Melody (interpretada por Evan Rachel Wood) é uma moça provinciana que finge ser mais burra do que é para conseguir o que deseja. Os pais dela (Patrícia Clarkson e Ed Begley Jr.) surgem em determinado momento e através deles Woody Allen denuncia a hipocrisia da sociedade e o aviltamento individual que, em nome da manutenção do establishment, ela impõe. Sobretudo, é interessante observar como o autor aponta o revés disto: quando os personagens se libertam e “saem do armário”, o fazem de forma absolutamente exagerada – a mãe inaugura uma relação a três e o pai descortina uma homossexualidade convicta. Woody, à sua maneira, denuncia que o desequilíbrio permanece, o (desejável) caminho do meio não é alcançado e o vazio existencial é falsamente preenchido.
Há quarenta anos fazendo cinema, Woody Allen esbanja intimidade com a câmera e domina a linguagem fílmica como poucos. Em Watever Works ele brinca: escolhe a narrativa e o distanciamento brechtiano para quebrar o pacto com a audiência, como se dissesse: “não acreditem em tudo que vêem”, convidando o espectador à reflexão. O efeito de estranhamento que acontece quando vaza o boom em cena ou quando Boris conversa com a plateia são táticas chamadas de “desfamiliarização”, o que entre os gregos se afigurava como o início da investigação científica e do conhecimento. Boris é esse investigador que busca a verdade do mundo, não importa o quão doloroso seja este processo.
O filme termina com a assinatura de Allen bem marcada: depois de expor ao longo da trama a causticidade da vida e a dificuldade de se entender as engrenagens deste mundo, seus personagens encorajam a acreditar que existe sim encantamento, que é possível não enveredar por um cinismo corrosivo. Ver o mundo com maior lucidez não prescinde enxergar beleza no amor, nas relações, em uma manhã de sol, ou em whatever works.





