
Chico,
Fiquei pensando no que conversamos e me ocorreu te escrever. Você provavelmente ouviu falar naquele rapaz que morreu na África há umas duas semanas, Gabriel Buchmann. Nessa época, não sei como, recebi um email com o link do blog que os amigos e a família fizeram. O objetivo era arrecadar doações para custear uma equipe de experts em buscas complicadas. O blog começa com um texto que descreve a trajetória de Gabriel, sua personalidade, seus princípios e motivações. E termina com um email que ele enviou para a mãe, irmã, um amigo e a namorada, que eu acabei de ler em prantos. Acompanhei todas as notícias que foram veiculadas, busquei o nome dele no Google, no Orkut, na Plataforma Lattes e me envolvi como se o conhecesse.
Sei lá. A gente ouve todos os dias histórias de gente incrível que perde a vida por fatalidades e o choque não dura até acabar a xícara de café. Mas neste caso, a vítima era tão próxima! Um cara da zona sul carioca, estudante da PUC, torcedor do Flamengo, apaixonado por praia, pela vida. Um cara que sofreu as mesmas influências que eu, que muito provavelmente assistiu às mesmas palestras e aulas que eu, que esteve no CCBB ou no Odeon, que pode ter cruzado comigo diversas vezes. Acima de tudo, alguém com uma visão de mundo tão evoluída capaz de renunciar à posição de espectador do cotidiano em favor de transformar uma realidade que lhe parecia equivocada. Um jovem que, durante seus dias africanos, separava o mínimo de dinheiro para comer e o que sobrava do seu daily budget era usado para pagar o aluguel de uma família no interior do Senegal, garantir a permanência de uma criança pobre na escola, entre outras nobres iniciativas. (Não deixe de ler o email: http://ajudegabrielbuchmann.blogspot.com/).
Enquanto isso, no Shopping Leblon, alguma mocinha fashion não consegue elucidar uma grave problemática: o vestido do Herchcovitch combina melhor com sapato de bico fino ou bota de cano longo?
Não pretendo fazer apologia à pobreza, nem decretar de que maneira o dinheiro alheio deve ser usado, somente esclarecer que o convívio com pessoas e realidades diferentes mudou os meus valores de forma definitiva.
O que leva um indivíduo a fazer determinadas escolhas? As circunstâncias, as influências externas, a educação recebida, a herança genética, o lugar onde nasceu, a escola em que estudou? Um contingente infindável de possibilidades, mas que não encerram, necessariamente, um destino inexorável. Por isso me questionar o tempo todo. Buscar minha verdade, decidir quem eu quero ser e o legado que gostaria de deixar – em vez de seguir o rebanho. O que hoje me move é o compromisso em não ser medíocre, usar meus braços para trabalhar, minhas pernas para perseguir meus sonhos, meus neurônios para validar a máxima cartesiana que submete a existência à razão – “Penso, logo existo”.
Os existencialistas, cuja filosofia adotei, lançaram um lema em meados dos anos 60: “Viver sem tempos mortos”. Você já parou pra pensar que o tic tac do relógio representa uma contagem regressiva e que a cada minuto que passa estamos mais perto da morte? Não existe pessimismo no que digo, apenas urgência em viver na plenitude.
Estou lendo um livro de um camarada chamado Richard Dawkins, considerado um importante intelectual da atualidade. Ele defende com veemência a inexistência de Deus. Paralelamente, a antropologia afirma que as civilizações descrentes em vida pós-morte foram as que mais feitos realizaram em menos tempo. O que isso prova: quando você acredita que aqui e agora é o tempo de que dispõe pra desenvolver todas as suas potencialidades, você acaba criando uma obsessão pelo realizar.
Ele diz: “Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…”
Então, por mais filosófico que isso possa parecer, e por mais que essas ilações me remetam a um lugar distante do pragmatismo necessário para resolver as questões materiais do dia-a-dia, venho buscando me redimir com o universo pelo tanto de tempo que ele me ofereceu e eu gastei em rodinhas de pessoas vazias, divagando sobre o nada e perguntando pro vento: “a viagem ta sem estrutura?”, “to sem caneta?”, “tá ruim?”
- Garçom, um tiro na cabeça, por favor!
Venho tentando justificar que quem esteja ocupando este lugar na Terra, consumindo o oxigênio da atmosfera, utilizando os recursos que o planeta oferece, seja eu, e não “um poeta como Keats”, ou “um cientista como Newton”. Que pica!!!
Aí, Chico, tem um discurso do Nizan Guanaes, que num momento epifânico, colocou:
“(…) cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução, que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra”
Eu descobri, Chico, que a vida é uma grande pegadinha. Se você não for esperto pra perceber o que ela quer de você, em algum momento aparece o Sergio Malandro pra acabar com a diversão.