
Rumores anunciam que, não satisfeita em ocupar um espaço na mídia inversamente proporcional ao tamanho de seu talento, Fernanda Young promete ir além: quer revolucionar a arte da sedução.
Mesmo com uma busca acurada em sites que sobrevivem de celebridades como ela, não foi possível encontrar a matéria na íntegra (se é que houve). Entretanto, a breve declaração da “apresentadora”, “roteirista”, e “escritora” (imaginem um número de aspas equivalente às estrelas da constelação de Andrômeda) não permite lacunas:
“Se eu fizer não será pelo dinheiro, mesmo que o cachê que imagino merecer seja alto. Nem para convencer ninguém de que sou um mulherão, pois sei que sou. Faria para tentar salvar o erotismo da burrice e do mau gosto. Acho uma causa justa. Se excitem com inteligência!”.
De todos os eufemismos que as mulheres usam para apresentar a santíssima trindade (peito, bunda e boceta) ao grande público, este certamente é o mais esdrúxulo: não é pelo dinheiro; tampouco por vaidade – a heroína do pseudo-intelecto, movida por altruísmo e pela inefável sensação que a luta justa proporciona, pretende “salvar o erotismo da burrice e do mau gosto”.
É-me um prazer inenarrável imaginar o que a moça quer dizer com isso. Provável que, no que tange “mau gosto”, ela esteja se referindo à enxurrada de mulheres-fruta, planta, e demais seres inanimados que vêm invadindo o imaginário masculino embaladas pelo movimento funkeiro e pela mídia espetacular. Militante feminista que sou, vejo com pesar a coisificação da mulher. Imagens segmentadas (um pedaço de bunda, uma fatia de seio) de seus corpos em revistas masculinas escancaram a falta de interesse no que deveria ser o principal atrativo – ideias. Entretando, a liberdade, para mim, é uma questão ainda mais urgente que o feminismo e o que cada um faz com seu corpo não me diz respeito.
A propósito, a definição conceitual de prostituição nada mais é que oferecer satisfação sexual em troca de remuneração (profissão legítima que deveria ser reconhecida pelo Estado e regida sob leis trabalhistas), e por mais que tente, Fernandinha não pode passar o editor de texto nessa definição. A diferença material entre ela e a “Mulher-Jaca” posando nua para a Playboy é irrelevante: lençóis de linho, tapetes persa e outros enfeites que garantem o garbo e a elegância. A diferença ideológica, entretanto, é paquidérmica: as mulheres-hortifrutigranjeiras, via de regra, vêm da periferia, não têm acesso à informação, nunca ouviram falar em Simone de Beauvoir e não têm um puto na conta bancária. Já Fernanda Y., com toda a erudição que alega possuir e deixando claro que dinheiro não é problema – reticências.
Consideremos ainda que enquanto expoente midiático, a “Mulher-Melão”, cujo marketing foi construído através da ligação de sua imagem à dos taxistas, possui função social mais importante que a de Fernanda Young: o cara dirige em média 18hs por dia, em ambiente estressante, recebe para isso remuneração insuficiente, não possui acesso a saúde, educação, garantias trabalhistas ou direitos humanos. Esse trabalhador é o homem canibal, ignorante e inculto que encontra satisfação estética/erótica em um cenário que a futura coelhinha classificaria como burro e de mau gosto. Esse sujeito, obviamente, não pretende abrir as páginas da revista de sacanagem e encontrar a cara blasé de Fernanda Young lendo um livro do Foucault, no que seria um ensaio “eroticamente correto” (?).
Outra problemática de difícil solução é traduzir isto: “Se excitem com inteligência”. Será que ela vai sugerir ao editor da revista que em vez de imagens de sua xana, seja publicada uma série de contos eróticos escritos por ela, a la Anaïs Nin? Por que se não for isso – e é bem provável que não seja – qual a diferença de as fotos serem feitas no palácio de Buckingham ou no porto de Sepetiba? O público alvo, por acaso, quer admirar a paisagem ou tocar uma punheta?
É espantosa a egotrip da guria: ao afirmar que pretende salvar o erotismo da burrice, ela oblitera um sem-número de ensaios bem contextualizados, repletos de charme e erotismo de bom gosto. Imagens que se utilizam da esperta dicotomia esconder-revelar e transformam a suposta vulgaridade do nu em um espetáculo a ser apreciado pelos amantes do belo. Alessandra Negrini, clicada por J. R. Duran, é um exemplo de ensaio capaz de deixar eu, você, e a jabuticabeira lá de casa com tesão.
Isto posto, quero dizer que Fernanda Y. tem todo direito de se recusar a tirar fotos em posição ginecológica, ou determinar que o ângulo de abertura de suas pernas seja o menor possível. O que ela não pode, definitivamente, é justificar sua adesão ao time das mulheres de Hugh Hefner, intitulando-se fundadora do conceito de “nu artístico”.
Seria muito mais honesto se ela, nem que fosse em nome da espirituosidade, dissesse: “Quero posar nua porque, pelo menos durante o tempo em que a revista durar nas bancas, vou ser a mulher mais gostosa do Brasil – e vou pegar geral!”
Por último, é absolutamente intrigante imaginar o que ela entende por “bom gosto”. O programa televisivo “Irritando Fernanda Young” sobrevive da repetição de faniquitos protagonizados por ela – cuja resiliência é própria de uma adolescente que ainda disputa com a mãe o amor do pai – além de muita bizarrice e comentários preconceituosos (“você preferia dar um beijo de língua na Susan Boyle ou dar um selinho no King Kong?” – pra quem duvida, é só copiar e colar no Google).
Fernanda Y. fica no caminho do meio, sem conseguir ser uma fruta de grande porte, quanto mais uma comunicadora de grande porte. Young – que a julgar por seus atributos físicos e intelectuais, pode facilmente ser a nossa mulher-romã, cuja brilhante definição do meu amigo Cadu é: ”possui marcas peculiares na casca, uma bela coroa na cabeça (acreditando-se na realeza), casca-grossa, um porre pra comer… Na verdade só serve pra um chazinho”.




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